sexta-feira, 22 de julho de 2011

Aqui Jazz (mais um retorno)

Contra-tempos são imprevisíveis, acontecem à nossa revelia e nos deixam totalmente expostos a nossa precariedade. Jogando em nossa cara com escárnio como somos frágeis e dependentes de coisas que não controlamos. Outra coisa diferente é a pregiça e os adiamentos, estes fazem parte da natureza do humano, podem ser corrigidos facilmente, só dependendo de nossa vontade. Vamos procastinando nossos compromissos e até nossos desejos, num boicote da inércia.
Este papo todo aí de cima é só para tentar justificar a demora dos novos programas Aqui Jazz, que retomo numa nova série. Desta vez elaborei, mais uma vez, uma lista de versões de clássicos do jazz executados por artistas pop (ou em versões pop) e vice-versa, como foram os primeiros programas que fiz. Peço desculpas pela demora e por eventuais falhas.
Espero que todos os meus poucos ouvintes curtam, comentem e façam sugestões.
Abraços fraternos de JR.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Eduardo Kac - Crítica.




Eduardo Kac faz da tecnologia a sua obra, torna a execução mais importante do que o resultado. Foi assim com “sua” coelha fosforescente, aliás radioativa já que sua luz acompanha o artista até hoje. Esta mesma coelha ainda gera obras como desdobramentos, mas todas elas são menores do que a tecnologia usada para criá-las. Na exposição atual ainda continuamos ouvindo ecos da verdinha, seja em obras nas quais ela é usada para gerar caracteres que a representariam, seja através do Google Earth que nos mostra uma destas representações instaladas no teto do prédio onde a mostra acontece. Estes lepusgrifos verdes estão presentes em todas as obras do primeiro andar. Logo na entrada temos alguns discos de metal com estas formas, somos imediatamente informados que estes objetos foram “lidos” e processados por computadores da NASA e que estes dados foram enviados via satélite para a Estrela de Lepus, na galáxia tal, a tal distância e que os dados chegarão ao seu destino em tanto tempo. Na sala ao lado temos estes caracteres impressos em verde e preto em papel, veja bem, papel, gravura. Já num canto vemos uma projeção onde um espiral destas “letras” se move sobre fundo branco, porém somos informados antes que a criação dos padrões é ininterrupta, que não estamos vendo nenhum looping, mas o resultado final, mesmo se usado o looping, seria o mesmo: espiral de grifos sobre fundo branco.
Tem um outro andar totalmente dedicado a Edunia, uma petúnia modificada geneticamente onde um pedaço do códico genético do artista foi inserido, criando uma espécie de zoo-fito-flor. O texto neste andar, bastante poético chega a aludir a presença de fluidos do artista correndo pelas veias da planta. Veias? A planta não pode vir ao Brasil por questões alfandegárias, embora eu tenha lido uma matéria anterior a abertura da exposição em que o artista falava da difícil adaptação da planta ao clima tropical. Onde será que ela foi parar? O que vemos no andar então são fotos das flores em close, somos informados que elas foram fotografadas como retratos desta entidade Na’vi, que as individualizariam. Suponho que Margaret Mee tenha conseguido com mais sucesso este feito ao criar suas pinturas sobre a flora brasileira, mesmo que seu intuito fosse o oposto, o de classificar e, portanto generalizar as plantas. O que está exposto neste andar são fotos, papel, além de caixas vazias que conteriam sementes da flor. Imagino que as sementes também estão incluídas nos problemas aduaneiros.
Há também um estojo contendo material, um kit tipo faça você mesmo, que possibilitaria a modificação genética de bactérias, isso me lembrou um produto vendido na minha infância chamado Kikos Marinhos, supostos seres aquáticos antropomórficos que pintariam o sete quando crescidos, fato que obviamente nunca acontecia, me fez lembrar do tal kit pois minha mãe, mesmo depois da fraude desmascarada, ficou com medo de jogar as tais coisinhas fora e elas criarem um desastre ecológico, portanto cuidado com esta manipulação bacteriana, podemos acabar criando um mostro das profundezas. Mauro Espíndola produziu kits para modificações das mais diversas, em Mauro o intuito é puramente artístico, em Kac é biológico.
Também estão expostos pequenos quadro habitats, que devem ser regados e que se modificam com o tempo, estes objetos são realmente bonitos e fascinantes pois criam abstrações cromáticas que impressionam. Parecem pinturas criadas numa mesma sfra de um artista. Ops, falei em quadro?
Bem, sem mais delongas, a obra do artista, que disse em uma entrevista criar arte sem metáforas (seria possível?), leva muito mais em consideração a maneira como é produzida do que o resultado final, um artista intrinsecamente ligado a tecnologia, expõe no Oi Futuro gravuras, pinturas e retratos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Arquitetura.




Foto de construção na Rua Frei Caneca.

Eu sei muito bem que o Mundo anda desequilibrado, sei das desigualdades, das injustiças (justo estas que deveriam estar niveladas), e sei mais do que muitos da exigência da desordem na concepção estética das artes plásticas atuais, porém, em detrimento a tudo isso, devo confessar-me um aficionado pela simetria.
Gosto de organização, gosto de equilíbrio, sobretudo gosto de harmonia. Meus olhos podem passear sem susto pelos dois lados da coisa, compará-los. É realmente muito pacificador. Mesmo que seja uma assimetria simétrica como o Pórtico de Notre Dame ou ainda a escadaria dos Apóstolos de Congonhas do Aleijadinho.
Este pequeno prédio da foto fica na Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, local de lojas especializadas em material de construção. Moro aí perto e adoro esta construção, gosto de suas cores verde-amarelo “bagaceira”, amo suas pequenas varandas, enfim não tem muita explicação, ando pelo centro do Rio vendo e alguns detalhes desta cidade tão agressiva me alentam. Viva Portugal-Angola-França-BRASIL.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Palavras

Palavras.
Blocos monolíticos, mas moles como massa.
Secas e duras: pedra, mas insidiosas, amolecendo tudo.
Palavras.
Dizem e explicam tudo, mas sempre falham.
Explicitam a alma, mas não vão até lá.
Palavras.
Lidas, ouvidas, faladas, cantadas prometem o cerne,
Mas quanto ruído.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Dando um Tempo do Lugar

Gary Hill expôs pela primeira vez no Brasil, em outubro de 1997 no CCBB mostrou uma série de trabalhos em vídeo, numa época em que as pessoas, no Brasil, ainda perguntavam se vídeo era arte. Seus trabalhos, no entanto tinham tamanha força que ajudaram a demolir esta visão tacanha, acelerando a aceitação do vídeo como meio de manifestação artística. Atualmente o meio tronou-se uma unanimidade, mesmo entre aqueles que inicialmente o menosprezavam.
Na época fiquei muito impressionado com as soluções encontradas pelo artista para lidar com a preocupação primordial da arte, isto é o expectador.
Toda obra de arte existe, pois existe alguém para vivenciá-la. Sem esta “demonstração” de sua existência ela não passa de idéias na cabeça do artista. Gary Hill então propunha um entrosamento do outro com seus trabalhos sem o qual a obra estaria incompleta. Exemplificando: Tall Ships - projeções de pessoas, inicialmente ao longe, que se aproximam do visitante assim que a presença destes é detectada por chaves eletrônicas; Standing Apart/Facing Faces - duas figuras de um índio são, projetadas em tamanho natural em duas paredes, bem próximo ao vértice comum destas, fazendo com que o expectador se torne a terceira aresta deste triângulo.
A necessidade da interação obra-observador era tão grande que a tradução do título da exposição me parecia inexata (vale lembrar da dificuldade inerente de qualquer tentativa de tradução). O nome em inglês era Where The Other Takes Place, e foi traduzida como O Lugar do Outro, na minha opinião ficaria mais preciso se fosse: Onde o Outro Acontece, pois se aproximaria mais da importância concedida ao visitante pelo autor. Deixando mais clara a interação descrita anteriormente.
A relação entre Gary Hill e a literatura me passou despercebida entre aqueles trabalhos todos, mesmo sendo uma das maiores preocupações do artista, merecendo um texto super adjetivado de Arlindo Machado no catálogo daquela exposição.
Este viés é muito mais explicitado na exposição atual do artista, O Lugar Sem o Tempo (Taking Time From Place - algo que também poderia ser traduzido como: Dando Um tempo do Lugar) que encontra-se no Oi Futuro, com a curadoria de Marcello Dantas, mesmo curador da anterior. Agora a palavra está realmente no foco. Quase a totalidade dos trabalhos lidam com a palavra, podendo ser enquadrados como poemas visuais. Talvez seja esta a razão de eu ter ficado mais distanciado dos trabalhos. Em primeiro lugar não consegui entender as palavras que estão sendo ditas, em um trabalho elas são propositalmente entrecortadas nos deixando apenas com a imagem de um homem se jogando contra a parede com uma luz estroboscópica piscando contra os nossos olhos. Noutro uma mão manipula discos floridos enquanto o som dispara um texto que não me soou compreensível, e me pergunto: se um artista nacional resolvesse usar imagens de disco de chitões floridos, ele teria a admiração de alguém? A obra com a imagem dos trabalhadores silencioso encarando a câmera é da época dos trabalhos apresentados há 12 anos (no catálogo daquela exposição, vemos uma foto do trabalho) e está desconectado com a curadoria atual, além de me deixar uma impressão de que aquelas pessoas deveriam ser trabalhadores na construção do Rockfeller Center, pois os anos tornaram suas roupas em figurino de época. Em minha opinião o melhor trabalho de Hill exposto atualmente no Rio é aquele em que vemos pedaços do corpo do próprio artista pressionando uma superfície. A inteligência deste trabalho está no uso do som, uma modulação frequêncial que carrega em si toda a força feita nas projeções, ficando o contraste da suavidade (carícia) de uma projeção numa superfície e a força feita pelo retratado. Este trabalho justifica o nome da mostra. Outro ponto alto é o texto do artista plotado no nível inicial das galerias.
Fico com pena por não perceber a preocupação com o outro que o artista tinha, se deixando levar pela metalinguagem, característica da contemporaneidade que, na minha opinião, é chata e fria. Sinto saudades das figuras espectrais de Tall Ships que se aproximavam de nós, ficando a nossa frente, mudos, em tamanho natural, nos jogando dentro das suas engrenagens. Contemplar aquelas figuras nos fazia sentir toda a impossibilidade do diálogo e, principalmente, a força da comunicação não verbal, onde os ruídos de nossas psiques eram os fios no labirinto de Minos.